Garimpo ilegal de grande porte em Goiás é denunciado na PF, MP e Ibama

Imagem de satélite de garimpo supostamente ilegal em fazenda localizada na Cidade de Goiás
Imagem de satélite de garimpo supostamente ilegal em fazenda localizada na Cidade de Goiás

Exploração clandestina de ouro, supostos danos ambientais e indícios de irregularidades trabalhistas colocam propriedade rural no centro de investigação solicitada a órgãos federais

Uma denúncia formal protocolada junto à Polícia Federal, ao Ministério Público e ao Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) aponta a existência de um suposto esquema de exploração ilegal de ouro em larga escala na zona rural do município de Goiás (GO). O alvo é o empresário João Maria Berquó Filho, proprietário da Fazenda São José do Descanso, onde, segundo denúncia, atividades típicas de lavra mineral estariam sendo realizadas sem autorização legal dos órgãos de fiscalização.

O documento anônimo, apresentado por um cidadão que solicitou anonimato por temor de represálias, reúne indícios técnicos, imagens de satélite, registros audiovisuais e relatos que sugerem a operação contínua de garimpo há pelo menos dois anos — apesar de a área possuir apenas requerimento de pesquisa mineral, sem concessão para exploração.

Estrutura de lavra e suspeita de fraude documental

De acordo com a denúncia, imagens aéreas e inspeções visuais indicam a presença de escavações profundas, maquinário pesado, barragens e estruturas compatíveis com mineração ativa — e não com simples pesquisa mineral, como previsto na autorização vigente.

Outro ponto considerado grave é o suposto uso indevido de um alvará de pesquisa vinculado a outra área, o que poderia caracterizar tentativa de induzir fiscalizações ao erro. A denúncia também menciona que a titularidade formal de um dos processos minerários pertence a uma empresa distinta, levantando dúvidas sobre a legalidade da operação conduzida na propriedade.

Impactos ambientais e risco de contaminação

A denúncia aponta ainda uma série de possíveis danos ambientais. Entre eles, desmatamento identificado por sistemas de monitoramento como o DETER/INPE e o SAD Cerrado, além da suspeita de desvio de curso d’água e construção irregular de barragens.

Um dos aspectos mais alarmantes é a possível utilização de mercúrio no processo de extração do ouro, substância altamente tóxica e proibida em diversas circunstâncias. Caso confirmada, a prática pode representar risco direto de contaminação de solos, lençóis freáticos e rios que integram a Bacia do Rio Araguaia, além de impactos severos à fauna, flora e à saúde humana.

Vale ressaltar que o Brasil é signatário da Convenção de Minamata, que estabelece restrições rigorosas ao uso de mercúrio na mineração, o que amplia a gravidade das suspeitas.

Alternância de áreas e tentativa de driblar fiscalização

Além da Fazenda São José do Descanso, a denúncia cita uma segunda propriedade — Fazenda São Felipe — que também estaria sendo utilizada para atividades semelhantes. Segundo relatos de moradores, haveria uma alternância entre as áreas como estratégia para dificultar ações de fiscalização ambiental, o que, se comprovado, pode indicar atuação sistemática e organizada.

Indícios de irregularidades trabalhistas e financeiras

O documento também levanta suspeitas sobre condições de trabalho nas áreas de garimpo, incluindo possíveis vínculos informais e até situações análogas à escravidão — o que motivou o pedido de atuação conjunta com o Ministério Público do Trabalho.

Há ainda sugestão de investigação sobre movimentações financeiras do investigado, incluindo possível lavagem de dinheiro, considerando que o ouro extraído, em tese, não teria origem legal comprovada.

Pedido de investigação ampla

Diante da gravidade dos fatos, o denunciante solicita uma série de medidas, incluindo:

  • Fiscalização in loco com peritos ambientais e do trabalho
  • Perícia técnica para avaliar contaminação por mercúrio
  • Requisição de documentos à Agência Nacional de Mineração (ANM)
  • Verificação de licenças ambientais junto à SEMAD-GO
  • Quebra de sigilos bancário e fiscal
  • Oitiva de testemunhas e trabalhadores

Também foi solicitado que a ANM suspenda temporariamente a tramitação de processos minerários relacionados às áreas até a conclusão das investigações.

Direito de resposta: questionamentos ao investigado

Em respeito ao princípio constitucional do contraditório e da ampla defesa, o investigado foi procurado e teve a oportunidade de se manifestar sobre todas as acusações.

Entre os principais pontos questionados, estão:

  • A existência de estrutura ativa de garimpo em área com autorização apenas para pesquisa
  • A suposta extração contínua de ouro sem licença de lavra
  • O possível uso irregular de documentos vinculados a terceiros
  • A utilização de mercúrio e impactos ambientais decorrentes
  • Desvio de cursos d’água e construção de barragens sem outorga
  • Condições de trabalho e número de funcionários na propriedade
  • Destino e comercialização do ouro extraído
  • Existência de desmatamento ilegal e uso irregular de recursos hídricos
  • Alternância de áreas para evitar fiscalização

Em resposta, João Maria Berquó Filho confirmou ter conhecimento das acusações e denúncias, porém limitou-se a dizer que: “é tudo calúnia, oriunda de um vizinho que não tem Deus no coração”. Ele não apresentou, até o momento, documentos ou esclarecimentos detalhados sobre os pontos levantados. O espaço segue aberto para manifestação do denunciado.

Caso pode ter desdobramentos federais

Por envolver possíveis crimes ambientais, exploração de recursos minerais da União e impactos em bacias hidrográficas federais, o caso pode avançar na esfera federal, com atuação coordenada entre Polícia Federal, Ministério Público, Ibama e outros órgãos de controle.

Se confirmadas, as irregularidades podem resultar em sanções penais, administrativas e ambientais, além de multas e suspensão de atividades, sem prejuízos de sanções outras.

As investigações ainda estão em fase inicial, e a veracidade dos fatos dependerá da apuração oficial dos órgãos competentes.