Em entrevista ao Acorda Goiás, psicólogo chama atenção para a importância do acolhimento, do fortalecimento dos vínculos e da articulação da rede de cuidados diante do isolamento e das mudanças nas relações sociais
O sofrimento mental nem sempre é percebido por quem está próximo e, quando se manifesta, pode vir acompanhado de cobranças, julgamentos ou tentativas de minimizar o que a pessoa está vivendo. Para o psicólogo e analista junguiano Jorge Antônio Monteiro de Lima, presidente do Instituto Olhos da Alma Sã, reconhecer esse sofrimento e oferecer acolhimento são atitudes importantes antes mesmo do encaminhamento para atendimento especializado.
O tema foi abordado pelo psicólogo em entrevista recente ao programa Acorda Goiás, da TV Alego, apresentado pelo jornalista Jordevá Rosa. Na conversa, Jorge falou sobre saúde mental, violência, isolamento, relações familiares, enfraquecimento dos vínculos sociais e a necessidade de integrar diferentes formas de cuidado.
Para ele, a primeira resposta diante de uma pessoa em sofrimento não deve ser a cobrança ou o julgamento.
“Se tem alguém em sofrimento na sua família, não julgue. A pior coisa que tem é o julgamento. Perceba que a pessoa está em sofrimento e encaminhe para um serviço especializado”, afirmou.
A dificuldade de estar junto
Parte dos desafios atuais da saúde mental, segundo Jorge, não pode ser analisada apenas a partir do indivíduo. Mudanças na forma como as pessoas se relacionam, o isolamento e a redução dos espaços de convivência também precisam entrar nessa discussão.
“O que mais me assusta é que perdemos a capacidade de estar juntos”, disse.
O psicólogo chamou atenção para situações cotidianas em que as pessoas estão fisicamente próximas, mas praticamente não interagem. Citou, por exemplo, ambientes de convivência nos quais cada um permanece concentrado no próprio celular, reduzindo o espaço para a conversa e para a troca.
A tecnologia, nesse contexto, não aparece como causa isolada do sofrimento, mas como um dos elementos de uma transformação mais ampla nas relações sociais. Para Jorge, é preciso recuperar formas de convivência baseadas na presença, no diálogo e na capacidade de perceber o outro.
“Quem de nós não precisa ser ouvido?”, questionou.
Violência também afeta a saúde mental
A violência foi outro ponto discutido na entrevista. Para o psicólogo, seus impactos ultrapassam a agressão física e podem alcançar diferentes dimensões da vida, com consequências para indivíduos, famílias e comunidades.
O enfrentamento dessas situações exige redes capazes de acolher quem está em sofrimento e encaminhar cada caso para o atendimento adequado, evitando que a própria pessoa seja responsabilizada ou julgada pela situação que enfrenta.
Essa perspectiva também orienta ações desenvolvidas pelo Instituto Olhos da Alma Sã, que atua na área de saúde mental com iniciativas de atendimento, acolhimento, formação e ampliação do acesso aos cuidados.
Rede precisa funcionar de forma articulada
Ao tratar das políticas e dos serviços de saúde mental, Jorge defendeu maior articulação entre estruturas que já atuam na área. Na entrevista, citou os Centros de Atenção Psicossocial (Caps) e experiências de atendimento social como componentes dessa rede.
“Está faltando agregar, somar, fazer a coisa acontecer. Não é só falar em época de campanha. É criar estruturas”, afirmou.
Para ele, ampliar o cuidado passa não apenas pela existência dos serviços, mas também pela capacidade de aproximar iniciativas, profissionais e diferentes pontos da rede de atenção à saúde mental.
Uma das experiências nesse campo é a Clínica Social do Instituto Olhos da Alma Sã, criada para ampliar o acesso ao acompanhamento em saúde mental. No modelo adotado pela instituição, o próprio usuário informa quanto pode pagar pelo atendimento, de acordo com sua condição financeira. Os atendimentos podem ser presenciais ou on-line.
Sediado em Goiânia, o Instituto Olhos da Alma Sã completa 29 anos de atuação em 2026 e desenvolve ações de atendimento, formação e promoção da saúde mental.
Reconstrução dos vínculos
Ao longo da entrevista, Jorge relacionou o cuidado com a saúde mental à necessidade de reconstrução dos vínculos e da convivência. Para ele, além da assistência especializada, é preciso recuperar atitudes aparentemente simples, como conversar, escutar e estar presente.
No encerramento do programa, deixou uma mensagem que sintetizou essa reflexão: “Vamos voltar a conviver, vamos olhar no olho”.
Convidado pelo apresentador a resumir em uma palavra o que considera necessário diante dos desafios discutidos, respondeu: “Humanidade.”








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